sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As cinco graças (Mustang, 2015) , de Deniz Gamze Ergüven





Indicado a melhor filme estrangeiro no Oscar 2016



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




Candidato da França na categoria de melhor filme estrangeiro este ano, "Cinco Graças" (Mustang) é a estreia da diretora turca Deniz Gamze Ergüven em longa-metragem. Em colaboração com a francesa Alice Winocour, ambas responsáveis pelo roteiro, Deniz apresenta uma história libertária de uma juventude feminina Turca que não aceita as amarras impostas por casamentos arranjados e proibições familiares que minam a liberdade no amor, no sexo e nos relacionamentos. Apresentando um elenco de jovens garotas, belas e em fase de desabrochar da identidade e da sexualidade, Deniz dirige um inspirador filme a qualquer mulher.




Deniz Gamze Ergüven e as cinco atrizes que 
representam as irmãs, as "Cinco graças".




Com  variadas premiações internacionais, entre elas a de "Label Europa Cinemas" em Cannes e prêmios de público nos festivais  American Film Institute , Chicago, Sevilla e Valladolid, esta primeira direção de Deniz Gamze Ergüven teve uma boa estratégia para diretores que se lançam no mercado cinematográfico global e têm ganhos de projeção nas mostras. Neste caso, o produtor é o excelente Charles Gilbert que costuma liderar projetos bem sucedidos e/ou de qualidade acima da média. É ele que produziu "Cópia Fiel" de Abbas Kiarostami  e "Acima das Nuvens" de Olivier Assayas, apenas para dar alguns exemplos de como Deniz se associou a um produtor que lhe possibilitou uma boa estreia.







"Cinco Graças" enquadra-se em uma rara categoria de filmes que enfocam a naturalidade do comportamento de jovens mulheres que têm um misto de introspecção, rebeldia e curiosidade e que são barradas pela rigidez familiar e, também, cultural e social. Neste tipo de narrativa, o que torna a história mais intimista é o ambiente criado no seio da família tradicional e com protagonistas irmãs, cada uma com sua personalidade em desenvolvimento e que formam uma irmandade que eleva a força dramatúrgica da voz do Feminino. Desta forma, aqui temos o mesmo caso de "As virgens suicidas" de Sofia Copola, porém com uma abordagem menos depressiva e mais engajada considerando que o contexto é de uma cultura Turca extremamente rígida e machista. A forma com a diretora orquestra os elementos em cena, especialmente a direção das inexperientes atrizes, tem um frescor que bebe na fonte do Cinema independente e é muito bem apoiada pela dupla de diretores de fotografia, David Chizallet ("Alyah") e Ersin Gok, pela montadora Mathilde Van de Moortel ( "Depois de Maio", "Frango com ameixas" e "As mulheres do sexto andar") e pela música de Warren Ellis (banda Nick Cave and the bad seeds). Em alguns momentos, esta combinação de elementos chega a ser bem sensorial e inspirar esta liberdade acima das convenções.







De maneira geral, a execução de "Cinco Graças" é bastante equilibrada. Ele não leva o status de obra prima e restringe-se, muito sabiamente, a entregar uma história envolvente com atrizes não profissionais e talentosas o suficiente para demonstrar espontaneidade nas atitudes e ações. Nisto está sua eficiência, sua voz universal. Desta forma, a principal virtude deste belo filme é ser simples, sensível e despertar a empatia pelas garotas. Em diversos momentos, as jovens são proibidas de fazer as coisas de que gostam e quanto mais são oprimidas e forçadas a ficar enclausuradas, mais o público poderá ficar sensibilizado e achar tudo aquilo um absurdo (porém, por incrível que pareça, existe e é uma dura realidade). Imagine uma jovem ser proibida de sair de casa e, qualquer tentativa de socialização com garotos, por exemplo, ser encarado como uma afronta a familiares e vizinhos? O alto nível de opressão é demonstrado através de sutilezas e não sutilezas e isso é bem favorável para fazer valer esta proposta narrativa.







A boa execução é bem facilitada por um excelente roteiro que não despreza a importância do papel de cada irmã. Cada uma delas tem sua própria história e seu jeito de ser e é exatamente este outro aspecto que também valoriza a história e seu efeito emocional. Com isso, é possível observar qual é a luta de cada jovem, ainda que todas elas sejam colocadas em situações constrangedoras que impõem casamentos arranjados, atividades domésticas, clausura e proibições a lazer e educação, entre outras, cada irmã traz uma característica pessoal, seja a que está apaixonada por um vizinho, seja a que não aceitará um casamento arranjado e está disposta ao autosacrifício. Daí surge a beleza da irmandade em uma cultura rígida como esta, a de que, cada irmã tem a sua identidade e, mesmo assim, estão todas no mesmo barco diante da opressão contra a mulher. Suas dramáticas e individuais histórias contribuem para um propósito libertário muito maior pois cada uma é e tem uma graça, cada uma encanta em sua própria dor. Assim, há sempre uma esperança neste universo feminino inspirador e ela tem destaque em Lale (Günes Sensoy), a caçula, afinal, são as gerações cada vez mais jovens que podem mudar algo no mundo. Aqui não seria diferente.





Estreia no Brasil: 18 de Fevereiro de 2016
Distribuição: Pandora filmes

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